Ciências da educação na prática docente
Inicialmente podemos definir as ciências da educação como pedagógica. Porém, quando refletimos sobre o tipo de saber que forma a pedagogia estamos no âmbito da epistemologia pedagógica.
Portanto, a pedagogia, vista epistemologicamente, é uma ciência que possui um estatuto complexo e muito particular por alguns fatores importantes: é uma ciência social e humana e também uma ciência prática que traz em seu bojo uma tecnologia.
No entanto, além desses fatores é uma ciência que traz um conjunto de saberes diversos.
A complexidade contida nas ciências da educação ( pedagogia), advém de seus objetos: o ser humano, a sociedade e o comportamento humano.
A partir desses princípios podemos colocar as ciências da educação em relação direta com a cultura e por esse motivo estas ciências acompanham o homem desde períodos paleolíticos e neolíticos. O processo cultural e por conseguinte linguístico acompanhou o ser humano em seus desafios de sobrevivência.
Vale lembrar que se não houvesse língua, cultura e educação como o processo de ensinar várias práticas no plano da sobrevivência, os homens não solucionariam seus problemas.
Portanto, se o saber não percorresse gerações a raça humana poderia se extinguir diante das intempéries da natureza.
Neste sentido a prática educativa e virtude desse caráter fundamental identifica-se com o processo de hominização e humanização.
Pedagogia e prática docente
Vimos até aqui que as ciências da educação são definidas como pedagogia e estão no centro de toda atividade humana. Assim, a pedagogia se relaciona com o aprendizado embutido historicamente na cultura e nas sociedades humanas.
Portanto, quando abordamos as ciências da educação na prática docente estamos falando de um conjunto de saberes complexos e históricos que fazem parte da cultura. Neste sentido, as ciências da educação não compreendem somente a prática docente em sala de aula.
Nas palavras de Libâneo, “ A base de um curso de pedagogia não pode ser a docência. A base de um curso de pedagogia é o estudo do fenômeno educativo, em sua complexidade, em sua amplitude. Então , podemos dizer: Todo trabalho docente é trabalho pedagógico, mas nem todo trabalho pedagógico é trabalho docente” ( LIBÂNEO, 2006).
As palavras de Libâneo nos dão uma ideia da profundidade da pedagogia e ao mesmo tempo nos alerta para um momento atual da pedagogia que a reduz a um estudo de competências e treinamentos.
Este momento reflete na prática educativa aportes do mercado, ou seja,visto de maneira radical a educação atual é vista como um lugar que treina pessoas para o mundo do trabalho.
Neste sentido, a pedagogia, a sociologia, a psicologia que fazem parte das ciências da educação se esvaziam em suas pesquisas a fim de estudar métodos para tornar os indivíduos mais competentes.
As ciências da educação e as tendências atuais
Antes de termos uma ideia panorâmica da história das ciências da educação é preciso visualizar dois pólos opostos de concepções sobre a atuação dessas ciências.
A polêmica em torno das ciências da educação é consequência de um mundo com um sistema econômico globalizado que cobra das universidades adequações com suas demandas, ou seja, a formação de indivíduos aptos em detrimento de indivíduos críticos.
Este cenário gerou duas tendências:
- O enxugamento do estudo das ciências da educação em prol do treinamento de habilidades relacionadas com a prática educacional
- A defesa de uma formação teórico-metodológica de caráter amplo e profundo
Quando analisamos as duas tendências vemos que a primeira preconiza a redução da pedagogia a uma prática em sala de aula evidenciando o treinamento de habilidades. Por outro lado, a segunda tendência evidencia as ciências da educação como um aprofundamento teórico na formação do professor fazendo-os perceber a complexidade do fenômeno educacional.
Esta complexidade aponta a educação como um processo individual e social e esse processo inclui subjetividades e intersubjetividades e não pode ser reduzido a um treinamento de competências.
É importante lembrar que estamos vivendo um debate sobre a educação em que precisamos achar os seus princípios, formatos e finalidades e que esse debate sempre esteve presente na história da educação.
No entanto, é preciso levar em conta as transformações econômicas, políticas sociais que incidem no contexto atual e como estas transformações influem e pressionam o sistema educacional.
História das ciências da educação
Na história das ciências da educação podemos começar por uma educação que está comprometida com o crescimento pessoal e que também está relacionada com a dimensão afetiva, cultural, social, ética e política. Podemos encontrar esse modelo no século XVIII na tradição ocidental humanista.
A Bildung que significa, formação educação e cultura refere-se a educação como um processo que almeja a completude do indivíduo, este modelo educativo era atrelado ao iluminismo e seus valores de universalidade e idealismo.
Vale lembrar que esse modelo foi influenciado pelo pensamento grego especificamente a paidéia grega, modo como era compreendida a educação na Grécia antiga.
Paideia em seu significado original remetia a educação das crianças, ou seja, transmissão de valores de geração para geração.
No entanto, no contexto oitocentista alemão a bildung está mais relacionada com a emancipação do indivíduo frente à monarquia. Portanto, o indivíduo que recebia essa educação era capaz de questionar uma hierarquia social pautada por vínculos sanguíneos ou celestial.
A partir dessa concepção de educação o indivíduo é capaz de se formar integralmente em seus aspectos internos e externos.
Portanto, esse modelo educativo do século XVIII repudia o conhecimento meramente utilitário e instrumental.
Discussão sobre a prática docente e ciências da educação
Vimos até aqui como foi pautada historicamente as ciências da educação e comparada aos nossos tempos podemos ver que alguns retrocessos são muito ruins.
Assim, eles podem causar uma perda irreparável nas concepções educativas que foram conquistadas na sociedade mundial.
A partir da resolução n.1, 15/05/2006 estipulou-se uma formação para os professores pautada na docência, A partir dessa diretriz a formação dos professores pendeu para uma prática em sala de aula empobrecendo todo arcabouço teórico.
Atualmente a formação dos professores está atrelada à BNCC e é focada nas habilidades e competências dos alunos do ensino básico.
Esta ênfase na prática docente em detrimento de um corpo teórico da pedagogia ocasionou muitas discussões e polêmicas.
Muitos pesquisadores da educação alegam que quando se troca uma uma formação do professor pautada na ciências da educação por uma formação baseada meramente na prática docente, fragmenta-se a pedagogia.
Isto acontece porque não se associa 3 fatores que fazem da pedagogia uma ciência da educação: Ensino, pesquisa e extensão.
Neste sentido, quando a formação dos professores é focada na mera transmissão de conteúdo, sem pesquisa e sem produção de novos conhecimentos e sem reflexão, a educação tende a se transformar em adestramento.
Portanto a ciências da educação na formação docente, orienta a prática dos professores em sala de aula de maneira que essa não caia em treinamento de habilidades, como atualmente infelizmente pende a educação.
Pedagogia, pensamento positivista e sua indefinição atual
Durante longo período na história da educação a pedagogia foi sustentada por uma cientificidade que hoje está sendo trocada por uma técnica de ensino.
Ou seja, a análise e reflexão sobre como os jovens e crianças aprendem está sendo substituída por documentos que treinam professores para cumprir pautas engessadas, sem espaço para discussão e reflexão.
Historicamente a pedagogia se desenvolveu em cima de pressupostos da ciência positivista calcada no método científico. Porém como a pedagogia é uma parte das disciplinas sociais esta ligação com a ciência positivista causou um série de problemas.
Um dos principais problemas é que a pedagogia não pode alcançar a precisão de uma ciência exata, por esse motivo não concretizou de maneira satisfatória o seu objeto de estudo.
Neste sentido, em seu percurso histórico a pedagogia é tratada como: arte, metodologia, ciência da arte educativa, recentemente como atuação docente.
O objeto atual da pedagogia é a atuação docente desconsiderando o estudo do fenômeno educativo na sua complexidade e amplitude.
Portanto, a indefinição do papel da pedagogia na sociedade e no mundo acadêmico trouxe um papel esvaziado da pedagogia em relação à sociedade e a formação dos professores.
Atualmente a pedagogia está voltada para práticas educativas conservadoras e descontextualizadas do conhecimento científico e do verdadeiro papel dos professores.
Nesse sentido é urgente repensar a pedagogia e recolocá-la em um espaço científico de pesquisa e reflexão. Portanto a pedagogia como a principal ciência da educação, segundo Libâneo é um campo de conhecimentos sobre a problemática educativa na sua totalidade e historicidade e ao mesmo tempo, uma diretriz orientadora da ação educativa.
Portanto Libâneo define a pedagogia em um campo teórico e prático, para ele a pedagogia precisa se preocupar com o ato educativo tornando a educação uma prática humana e social de transformação.
Contudo, mesmo dentro de uma acepção teórica e prática a pedagogia que forma os professores não pode se reduzir ao treinamento de habilidades e competências.

Pedro Guimarães – Mestre em música na área de Etnomusicologia pela UNESP. Professor de Música e Arte Educador nas seguintes Instituições: Serviço Social da Indústria (SESI); Centro de Educação Unificada da prefeitura (CEU); Faculdade Anhembi Morumbi; e Instituto Paulo Vanzolini (Formação de Professores). Músico multi-instrumentista e compositor de trilha sonora.

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