{"id":633,"date":"2023-01-11T09:00:00","date_gmt":"2023-01-11T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/?p=633"},"modified":"2022-12-19T19:17:48","modified_gmt":"2022-12-19T19:17:48","slug":"a-indisciplina-em-sala-de-aula-entender-e-resolver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/a-indisciplina-em-sala-de-aula-entender-e-resolver\/","title":{"rendered":"A indisciplina em sala de aula: entender e resolver"},"content":{"rendered":"\n<p>A indisciplina em sala de aula \u00e9 um problema que atravessa os tempos da educa\u00e7\u00e3o. No entanto, se o docente n\u00e3o analisar a fundo as causas desse fato em seu espec\u00edfico cotidiano este problema se torna insol\u00favel.<\/p>\n\n\n\n<p>Um problema muito comum na tem\u00e1tica da indisciplina \u00e9 atribuir a culpa somente ao aluno se estendendo tamb\u00e9m para a sua fam\u00edlia sem refletir sobre a maneira de ensinar e as estrat\u00e9gias utilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem avaliar se existe uma repeti\u00e7\u00e3o do ensino tradicional baseada na exposi\u00e7\u00e3o de conte\u00fado na lousa em uma avalia\u00e7\u00e3o de aptid\u00f5es, homogeneizada.<\/p>\n\n\n\n<p>A indisciplina em sala de aula nunca \u00e9 uma fato de simples an\u00e1lise e sim \u00e9 considerada um fato complexo que tem suas ra\u00edzes sociais e psicol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste texto vamos analisar como a indisciplina ocorre em sala de aula, mas tamb\u00e9m como ela \u00e9 estigmatizada pela comunidade escolar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entendendo a indisciplina a partir da disciplina<\/h2>\n\n\n\n<p>Para entender a indisciplina dos alunos \u00e9 crucial entender o conceito de disciplina que \u00e9 colocado muitas vezes como objetivo da escola e das regras em sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente a disciplina recaiu sempre sobre a ordena\u00e7\u00e3o dos corpos e da fala, neste sentido, o aluno ideal era aquele que falava s\u00f3 quando solicitado e tinham seus movimentos ordenados segundo regras de conduta.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos entender esta ideia melhor lendo como exemplo um texto do in\u00edcio do s\u00e9culo XX intitulado <strong>Recomenda\u00e7\u00f5es Disciplinares<\/strong> citado por <strong>Julio Groppa Aquino<\/strong> (AQUINO, 2000, P. 84):<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c <em>N\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7as refrat\u00e1rias \u00e0 disciplina, mas somente alumnos ainda n\u00e3o disciplinados. A disciplina \u00e9 factor essencial do aproveitamento dos alumnos e indispensavel ao homem civilizado. Mant\u00eam a disciplina , mais do que o rigor, a for\u00e7a moral do mestre e seu cuidado em trazer constantemente as crian\u00e7as interessadas em algum assunto util.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os alumnos&nbsp; devem apresentar na escola minutos antes das 10 horas, conservando-se em ordem no corredor da entrada, para dahi descerem ao pateo onde entoar\u00e3o cantico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Formados dois a dois dirigir -se -h\u00e3o depois \u00e1s sua classes acompanhados das respectivas professoras que exigir\u00e3o delles se conservem em silencio e entrem na sala com calma, sem deslocar as carteiras.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dever\u00e3o andar sempre sem arrastar com os p\u00e9s, convindo que o fa\u00e7am em ter\u00e7a, evitando assim o balan\u00e7ar dos bra\u00e7os e movimentos desordenados do corpo<\/em>\u2026\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>(Braune apud Moraes, 1922, pp. 9-10)<\/p>\n\n\n\n<p>Este trecho escrito com a ortografia da \u00e9poca nos mostra como os alunos eram observados em seus movimentos corporais e em suas atitudes. N\u00e3o cabendo a eles qualquer autonomia e nenhuma tomada de decis\u00f5es. Ele se movimentava conforme a regra e as solicita\u00e7\u00f5es dos professores.<\/p>\n\n\n\n<p>A inten\u00e7\u00e3o de apresentar este trecho \u00e9 trazer \u00e0 tona a quest\u00e3o sobre o que os professores esperam dos alunos. Ou seja, qual \u00e9 a sala ideal dos dias atuais, pois muitos professores de maneira errada expressam ter saudade desse tempo de disciplina corporal e de atitudes.<\/p>\n\n\n\n<p>Revelam muitas vezes que a escola deveria ser como um espa\u00e7o militar e qualquer indisciplina deveria ser castigada com rigor. Onde tamb\u00e9m o docente era visto de forma hierarquizada, ou seja, o professor n\u00e3o era s\u00f3 a pessoa que detinha o respeito alheio, mas aquele que podia punir os \u201cdesvios\u201d (AQUINO, P.86).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido a professor deveria edificar o car\u00e1ter dos alunos mais do que desenvolver a consci\u00eancia do discente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A escola atual e a indisciplina<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando transportamos o problema da indisciplina para os tempos atuais, precisamos renovar nossos conceitos sobre disciplinas. Atualmente \u00e9 inconceb\u00edvel que os professores professam uma disciplina de corpos e condutas morais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 incompat\u00edvel com a crian\u00e7a e o jovem atual esperar um comportamento que os silenciem e os imobilizem. Portanto n\u00e3o podemos pensar indisciplina como contraste desta disciplina de 1930.<\/p>\n\n\n\n<p>Vimos que a disciplina do in\u00edcio do s\u00e9culo XX era baseada na escola tradicional onde o professor era o mestre e o centro da sala de aula, cabendo ao aluno somente obedecer a ele e as regras de conduta impostas pelas normas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Aquino (2000), hoje temos um outro aluno configurado em um novo sujeito hist\u00f3rico, mas em alguma medida, guardamos como padr\u00e3o pedag\u00f3gico a imagem daquele aluno submisso e temeroso.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Democratiza\u00e7\u00e3o do ensino e indisciplina<\/h2>\n\n\n\n<p>Muitos professores de uma maneira equivocada confundem democratiza\u00e7\u00e3o do ensino com a indisciplina. Ou seja, atribuem como causa da indisciplina o ensino para todas as classes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o desses educadores a culpa da indisciplina estaria recaindo sobre as classes menos abastadas, pois estes alunos n\u00e3o seriam capazes de acompanhar o processo de ensino de maneira adequada. A partir desse discurso a culpa da indisciplina seria familiar e ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo esta vis\u00e3o, vamos recair em diferen\u00e7as ambientais, ou seja, existem ambientes saud\u00e1veis que seriam as casas e bairros de classes mais abastadas e os ambientes que possuem defici\u00eancias culturais que s\u00e3o os dos estratos sociais mais baixos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00f3tica infelizmente persistiu at\u00e9 as d\u00e9cadas de 1980 e ainda persiste em alguns meios escolares.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos preconceitos sociais que est\u00e3o imbricados no ide\u00e1rio de disciplina, vale ressaltar que as regras mencionadas acima sobre a escola de 1930, s\u00e3o referidas a escolas que eram destinadas \u00e0s classes sociais abastadas, pois n\u00e3o havia ainda a democratiza\u00e7\u00e3o do ensino.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Indisciplina e idealiza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Nos dias atuais, existe o perigo de incorrer em erros grosseiros em rela\u00e7\u00e3o a conceitos de disciplina e indisciplina. Quando se fala de indisciplina dos alunos ao mesmo tempo falamos tamb\u00e9m de uma idealiza\u00e7\u00e3o do passado. Ou seja, at\u00e9 hoje o aluno disciplinado \u00e9 um aluno idealizado abstrato, e desenraizado dos condicionantes s\u00f3cio-hist\u00f3ricos ( AQUINO, 2000, P.87).<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos ver esta idealiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 em teorias psicol\u00f3gicas quando elegem uma ess\u00eancia humana pr\u00e9-social, como se o ser humano tivesse caracter\u00edsticas universais independente da influ\u00eancia do meio social (LIB\u00c2NEO, 1984 P. 158, Apud Aquino).<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa concep\u00e7\u00e3o, todo ser humano que age de maneira diferente desta suposta caracter\u00edstica universal \u00e9 um desajustado. Este fator ir\u00e1 criar a rela\u00e7\u00e3o da indisciplina com o desajuste mental repassando aos psic\u00f3logos e psicopedagogos o problema da disciplina.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Estrutura escolar desgastada e a indisciplina<\/h2>\n\n\n\n<p>O problema da indisciplina persiste at\u00e9 os nossos tempos por causa da imaturidade de atac\u00e1-lo. Na verdade a indisciplina pode nem existir e sim existir uma norma, uma disposi\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o escolar, um ordenamento do curr\u00edculo escolar defasado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando n\u00e3o pensarmos que os indiv\u00edduos s\u00e3o determinados historicamente e suas atitudes refletem o tempo hist\u00f3rico do sujeito, nunca resolveremos o problema da indisciplina.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o professor idealiza um aluno modelo que corresponde somente a suas expectativas, este nunca ser\u00e1 encontrado e os conflitos permanecer\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos concluir como J\u00falio Aquino que a indisciplina \u00e9 um sintoma de uma escola idealizada que requer um tipo de clientela mas \u00e9 ocupada por outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes a indisciplina \u00e9 atribu\u00edda aos alunos desajustados, neste caso estamos regredindo ao modelo adaptativo do indiv\u00edduo chamado de modelo m\u00e9dico no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, onde todo indiv\u00edduo precisa se adaptar a sociedade como se a sociedade fosse algo perfeito, inating\u00edvel, imut\u00e1vel com capacidade para moldar todos \u00e0 sua caracter\u00edsticas e regras.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Vimos nesse texto como o conceito de indisciplina est\u00e1 atrelado ao modelo de disciplina de 1930 ainda. Neste sentido, antes de abordar a indisciplina \u00e9 preciso fazer uma revis\u00e3o de nossos conceitos e pr\u00e1ticas escolares.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desta revis\u00e3o precisamos pensar se o nosso modelo atual escolar comporta o aluno atual e n\u00e3o ideal. Vale lembrar que este aluno hoje est\u00e1 tamb\u00e9m munido de informa\u00e7\u00e3o que vem dos meios tecnol\u00f3gicos e n\u00e3o resta nele quase nenhuma semelhan\u00e7a com o aluno idealizado do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:22% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"164\" height=\"164\" src=\"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Design-sem-nome.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-222 size-full\" srcset=\"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Design-sem-nome.png 164w, https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Design-sem-nome-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 164px) 100vw, 164px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Pedro Guimar\u00e3es<\/strong>  &#8211; Mestre em m\u00fasica na \u00e1rea de Etnomusicologia pela UNESP. Professor de M\u00fasica e Arte Educador nas seguintes Institui\u00e7\u00f5es: Servi\u00e7o Social da Ind\u00fastria (SESI); Centro de Educa\u00e7\u00e3o Unificada da prefeitura (CEU); Faculdade Anhembi Morumbi; e Instituto Paulo Vanzolini (Forma\u00e7\u00e3o de Professores). M\u00fasico multi-instrumentista e compositor de trilha sonora.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A indisciplina em sala de aula \u00e9 um problema que atravessa os tempos da educa\u00e7\u00e3o. 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