{"id":251,"date":"2020-09-23T00:01:00","date_gmt":"2020-09-23T00:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/?p=251"},"modified":"2020-09-02T10:56:10","modified_gmt":"2020-09-02T10:56:10","slug":"historia-panoramica-da-musica-ocidental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/historia-panoramica-da-musica-ocidental\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria panor\u00e2mica da M\u00fasica Ocidental"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo \u00e9 o primeiro artigo de uma s\u00e9rie de tr\u00eas, que discorreram sobre a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica e evolu\u00e7\u00e3o de m\u00fasica ocidental.&nbsp; Come\u00e7aremos com a an\u00e1lise da m\u00fasica grega e medieval e como ela evoluiu dentro de perspectivas sociais, filos\u00f3ficas e pol\u00edticas. na Gr\u00e9cia, analisaremos o sentido abrangente que o povo grego dava a m\u00fasica, colocando-a como linguagem expressiva de grande import\u00e2ncia. Passamos depois para a idade m\u00e9dia onde come\u00e7a com o canto gregoriano na sua primeira fase hist\u00f3rica e segue em um crescimento t\u00e9cnico e art\u00edstico coincidindo com o surgimentos das cidades e a queda do poder feudal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma tarefa muito dif\u00edcil e que beira ao imposs\u00edvel, colocar a hist\u00f3ria da m\u00fasica ocidental dentro de um artigo. Por isso o recurso do nome \u201chist\u00f3ria Panor\u00e2mica\u201d. O significado da palavra \u201cpanor\u00e2mica\u201d nos remete a uma vis\u00e3o ampla da hist\u00f3ria da m\u00fasica, que nos permite v\u00ea-la de uma forma n\u00e3o t\u00e3o detalhada e espec\u00edfica, mas que nos faz avaliar seus pontos de conex\u00e3o com seu contexto hist\u00f3rico pol\u00edtico e social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo veremos a evolu\u00e7\u00e3o de m\u00fasica transpassada pelo contexto pol\u00edtico e social que recai na conex\u00e3o da m\u00fasica com o pensamento epistemol\u00f3gico, com o saber filos\u00f3fico que determinou lugares da express\u00e3o e da linguagem musical.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7aremos na Gr\u00e9cia que tinha a m\u00fasica como um lugar ou suporte para a \u00e9tica e depois entraremos na concep\u00e7\u00e3o musical que determina o lugar da m\u00fasica como propagadora da f\u00e9 e da filosofia crist\u00e3 consubstanciada no estilo medieval. Observaremos como a m\u00fasica \u00e9 vista no conhecimento filos\u00f3fico, na mitologia e na ci\u00eancia. Veremos tamb\u00e9m como a m\u00fasica evolui de maneira sintom\u00e1tica, acompanhando as evolu\u00e7\u00f5es do pensamento e das organiza\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estrutura de m\u00fasica Grega<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00e1xis musical Grega no seu sentido especificamente musical te\u00f3rico e pr\u00e1tico se fala pouco porque restou escassa documenta\u00e7\u00e3o, no que diz respeito a partituras e tratados te\u00f3ricos de m\u00fasica. A import\u00e2ncia da m\u00fasica na Gr\u00e9cia vem expressa em um complexo de notas hist\u00f3ricas ou lend\u00e1rias. A m\u00fasica em si pelo pouco que resta dela \u2013 sete can\u00e7\u00f5es e alguns fragmentos \u2013 parece um tanto rudimentar. Pobre em instrumento musical, que com poucas varia\u00e7\u00f5es, foram ent\u00e3o todos reduzidos a dois tipos. Um instrumento de sopro \u2013 o Aulo \u2013 e o outro, um instrumento de cordas \u2013 A Lira (Mila, 1963, p.11).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existia ainda uma no\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, a melodia era conduzida com pequenas varia\u00e7\u00f5es de intervalos, com frequentes retornos a nota central. A vivacidade do ritmo \u00e9 escassa, estritamente ligado \u00e0 recita\u00e7\u00e3o e seguindo os esquemas m\u00e9tricos da poesia. O elemento principal da m\u00fasica era o tetracorde (grupo de quatro notas), geralmente usados em dois grupos iguais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os diferentes grupos de notas eram classificados e nomeados por modos e havia inicialmente, nove modos diferentes: l\u00eddio, fr\u00edgio, d\u00f3rico, e seus derivados, ipolidio e iperlidio; ipofrigio e iperfrigio; ipod\u00f3rico e iperd\u00f3rico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O poder da m\u00fasica nas lendas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Mesmo que os escritos filos\u00f3ficos e pol\u00edticos n\u00e3o fossem adicionados para provar a import\u00e2ncia da m\u00fasica para os gregos. As lendas antigas seriam suficientes para testemunhar o seu imenso poder (Mila, 1963, p.11).<\/p>\n\n\n\n<p>Este poder da m\u00fasica \u00e9 expresso na lenda de Orfeu que arrastava as pedras, as plantas e os animais com sua can\u00e7\u00e3o, ou na de Anfi\u00e3o, filho de Zeus, que construiu as paredes de Tebas com sua m\u00fasica. Ou ainda na hist\u00f3ria de Arion, que foi salvo da morte pelos golfinhos que foram evocados por sua can\u00e7\u00e3o. O poder que \u00e9 dado a m\u00fasica pelos gregos n\u00e3o era apenas emocional, mas at\u00e9 mesmo de fascina\u00e7\u00e3o, paralisia ou excita\u00e7\u00e3o das faculdades volitivas. As artes liter\u00e1rias demonstram tamb\u00e9m esta import\u00e2ncia dada a m\u00fasica. As grandes epopeias, supostamente escritas por Homero no s\u00e9culo IX a.c, a Il\u00edada e a Odisseia, foram representadas sob a forma musical. M\u00fasica e poesia foram estritamente unidas na Gr\u00e9cia, Homero \u00e9 representado como um cantor cego acompanhando-se de uma c\u00edtara, um Aedo que cantava suas hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M\u00fasica e filosofia Grega<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na filosofia a m\u00fasica \u00e9 vista como express\u00e3o de um etos, chamada de \u201cDoutrina do <em>\u00e8thos<\/em>\u201d. Doutrina derivada do pensamento de Pit\u00e1goras, que concebe a m\u00fasica como sistema de sons e ritmo regido pelas mesmas leis matem\u00e1ticas que operam na cria\u00e7\u00e3o. Desde o in\u00edcio da organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica grega acreditava-se que a m\u00fasica influ\u00eda no humor e no esp\u00edrito dos cidad\u00e3os. A m\u00fasica era vista com certa cautela, por esta atingir o estado de esp\u00edrito das pessoas. Nas cidades-estado, ela foi objeto de preocupa\u00e7\u00e3o dos governantes, e a responsabilidade por sua organiza\u00e7\u00e3o e pela maneira como seria apresentada ao povo, estava nas m\u00e3os dos legisladores. Para Plat\u00e3o a m\u00fasica ocupava uma posi\u00e7\u00e3o de protagonismo lideran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras artes, o proposito da m\u00fasica n\u00e3o podia ser apenas a divers\u00e3o, mas \u201ca educa\u00e7\u00e3o harmoniosa, perfei\u00e7\u00e3o da alma a o aquietamento das paix\u00f5es\u201d (Lang, 1941, p13). Pode-se dizer que Plat\u00e3o \u00e9 o maior representante da concep\u00e7\u00e3o \u00e9tica da m\u00fasica, com o qual se da um passo a frente, pois se aproxima da realidade musical em si, mas em vez de estudar sua ess\u00eancia, estudou somente seu efeito, colocando o ensino da m\u00fasica sobre um terreno quase exclusivamente pratico da educa\u00e7\u00e3o moral e civil. Confirmando este vis\u00e3o pr\u00e1tica e moral, Plat\u00e3o, em sua rep\u00fablica, proibia o uso sensual da m\u00fasica traduzido na harmonia L\u00eddia (organiza\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica de notas).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles tem as mesmas ideias de Plat\u00e3o, mas com uma vis\u00e3o est\u00e9tica e \u00e9tica um pouco mais ampla, porque ele n\u00e3o exclui a m\u00fasica dolorosa e voluptuosa s\u00f3 que sem invadir o campo do outro, ou seja, sem a transmiss\u00e3o de tal efeito. Tamb\u00e9m adiciona o famoso conceito da catarse, Um consolo moment\u00e2neo trazido ao esp\u00edrito pela reprodu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do afeto pela qual a alma do paciente \u00e9 oprimida. Neste sentido, e segundo Massimo Mila, em seu livro \u201cBreve Storia Della Musica\u201d, Arist\u00f3teles captura qualquer significado espiritual mais profundo que poderia ser atribu\u00eddo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, reduzindo a m\u00fasica a uma esp\u00e9cie de medicina homeop\u00e1tica. Para Arist\u00f3teles a m\u00fasica \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o perfeitamente objetiva dos sentimentos dos outros, no sentido de arte como imita\u00e7\u00e3o da natureza. Este erro de concep\u00e7\u00e3o produz uma m\u00fasica totalmente ilustrativa, em detrimento de um lirismo mais expressivo, que pode ser atribu\u00eddo \u00e0 m\u00fasica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Raz\u00e3o e sentimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles concordam com acep\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da m\u00fasica em que seus efeitos provocam sentimentos variados nos ouvintes, como descrito na doutrina do \u00e9thos. A diferen\u00e7a \u00e9 que Arist\u00f3teles reconhece a influencia da m\u00fasica sobre os desejos humanos por meio do conceito de imita\u00e7\u00e3o, pois, para ele, a m\u00fasica imita as paix\u00f5es e os estados da alma (Lang, 1941, p18). Os dois principais instrumentos musicais dos gregos. O Aulo e a Lira, at\u00e9 hoje permanecem como s\u00edmbolo dos de dois tipos de m\u00fasica, A m\u00fasica da raz\u00e3o e a m\u00fasica dos sentimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos voltar as lendas para delimitar estes dois tipos de m\u00fasicas. Num deles, a m\u00fasica teria surgido quando Hermes, encontrando uma carapa\u00e7a de tartaruga na praia, estendeu sobre ela cordas de tripa de carneiro, inventando a <em>lira<\/em>, que deu de presente a Apolo. A outra lenda, contada por P\u00edndaro, diz que o <em>aulos<\/em> foi criado por Palas Athena, quando, ap\u00f3s a Medusa ser decapitada por Perseu, viu, comovida, suas irm\u00e3s lan\u00e7arem gritos pungentes que carregavam consigo todo seu sentimento de pesar diante da morte. A partir desse sentimento de extrema dor, ela criou um nomos especial em sua honra, estava criada a m\u00fasica (Fonterrada, 2005, p.21).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Veremos a seguir, estas duas concep\u00e7\u00f5es da arte musical se debaterem. A lira como s\u00edmbolo da raz\u00e3o, instrumento de Apolo que induz \u00e0 serena contempla\u00e7\u00e3o do universo e o aulos, um instrumento de sopro com palheta bastante estridente, de origem oriental , \u00e9 o instrumento de Dion\u00edsio, da exalta\u00e7\u00e3o e da trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M\u00fasica na Idade m\u00e9dia &#8211; Canto Gregoriano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Idade m\u00e9dia \u00e9 marcada como um longo per\u00edodo, que podemos colocar entre 500 d.C. a 1450 d.C., em que figura o sentimento religioso. Em confronto com o uso puramente pr\u00e1tico da m\u00fasica antiga romana, o cristianismo introduz uma concep\u00e7\u00e3o bem mais espiritual, n\u00e3o que o uso do canto nas cerimonias eclesi\u00e1sticas n\u00e3o tivesse tamb\u00e9m um intuito pr\u00e1tico. Mas o destino sacro elevou a m\u00fasica a um senso de solene e sublime misticismo, fazendo-a capaz de dar forma art\u00edstica ao sentimento do divino, do misterioso e do celeste.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Entende-se com a designa\u00e7\u00e3o de <em>canto gregoriano<\/em> toda a pr\u00e1xis da m\u00fasica feita durante o medievo no \u00e2mbito religioso, desde a origem do cristianismo at\u00e9 a origem do humanismo, quando se estabeleceu de forma efetiva o estilo de m\u00fasica polif\u00f4nica. O nome \u201cCanto Gregoriano\u201d \u00e9 atribu\u00eddo ao Papa Greg\u00f3rio Magno, que no final do s\u00e9culo VI escolheu e coordenou os cantos segundo a ordem das festas e cerim\u00f4nias. Trata-se de uma m\u00fasica vocal mon\u00f3dica (uma s\u00f3 melodia), enquadrada no esquema da liturgia cat\u00f3lica<\/p>\n\n\n\n<p>Greg\u00f3rio, portanto n\u00e3o s\u00f3 comp\u00f4s algumas can\u00e7\u00f5es novas, mas tamb\u00e9m revisou e compilou todas as j\u00e1 existentes, e reuniu em uma esp\u00e9cie de s\u00famula chamada de \u201cAntifon\u00e1rio\u201d. Este livro foi perdido durante a invas\u00e3o b\u00e1rbara, mas algumas copias foram feitas e este estilo musical difundiu-se pela Europa. A difus\u00e3o e o incremento desta pr\u00e1xis musical foram feitas por pregadores e soberanos ansiosos como Pipino, o Breve, e Carlos magno, em universalizar o rito romano, diante da profus\u00e3o de ideais de independ\u00eancia de diversos povos e culturas. Na tentativa de centraliza\u00e7\u00e3o do poder do imp\u00e9rio Carol\u00edngio.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Segundo alguns relatos, a difus\u00e3o do canto gregoriano para Europa se deu ap\u00f3s o papa Adriano I enviar dois cantores a Carlos Magno, Petros e Romanus para colaborar na unifica\u00e7\u00e3o religiosa e pol\u00edtica da Europa por meio do canto lit\u00fargico e do rito cat\u00f3lico romano universal. Petro se estabeleceu em Metz na Fran\u00e7a e Romanus na abadia su\u00ed\u00e7a de San Gallo dando origem a duas primeiras escolas de canto Gregoriano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Atendo-se para as influencias sofridas pelas formas e estilo do canto gregoriano, \u00c9 muito prov\u00e1vel que as primeiras comunidades crist\u00e3s herdassem das formas culturais do juda\u00edsmo os modos t\u00edpicos de recitar os salmos na liturgia, a salmodia sol\u00edstica (ou in directum), a salmodia responsorial \u2013 simples ou em coros alternados. A igreja cat\u00f3lica teria utilizado a salmodia judaica, para a cria\u00e7\u00e3o de novos c\u00e2nticos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estrutura do canto Gregoriano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na origem da liturgia crist\u00e3 existem duas formas de organizar o canto, definidas com nome de <em>accentus<\/em> e <em>concentus<\/em> que ir\u00e3o refletir nas formas recitativas e nas \u00e1reas. Estas duas formas determinaram a evolu\u00e7\u00e3o do canto gregoriano.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O <em>accentus<\/em>, ou canto sil\u00e1bico, foi sem d\u00favida a primeira forma de canto sacro. Consiste na recita\u00e7\u00e3o expressiva e cadenciada das ora\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No <em>concentus<\/em>, j\u00e1 existe uma entona\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica com cada s\u00edlaba correspondendo a uma nota, geralmente se usa uma entona\u00e7\u00e3o s\u00f3, variando apenas na cadencia final.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Import\u00e2ncia da m\u00fasica para a filosofia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito filos\u00f3fico a idade m\u00e9dia \u00e9 representada pelo pensamento cat\u00f3lico, neoplat\u00f4nico e escol\u00e1stico, consubstanciado nas teorias de Agostinho, Bo\u00e9cio, Abelardo e Tom\u00e1s de Aquino. O inicio da idade m\u00e9dia estabelece um contato direto com a ci\u00eancia musical cl\u00e1ssica de influencia grega. O simbolismo num\u00e9rico dos neopitag\u00f3ricos continua nos escritores crist\u00e3os, e a m\u00fasica desempenha importante papel nas explica\u00e7\u00f5es aleg\u00f3ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A m\u00fasica passa a fazer parte do Quadrivium junto com a aritm\u00e9tica, a astronomia e a geometria. Seguindo os ideais de Pit\u00e1goras descrito na doutrina do <em>\u00e8thos<\/em>, os estudiosos da m\u00fasica acreditavam que as rela\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas contidas nas escalas modais modificam o comportamento humano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas na idade m\u00e9dia, a miss\u00e3o da m\u00fasica de servir a moral e aos bons prop\u00f3sitos \u00e9 ampliada. O pensamento medieval mais aliado ao aspecto te\u00f3rico da m\u00fasica acredita que sem a m\u00fasica, nenhuma disciplina poderia ser perfeita.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Bo\u00e9cio, filosofo que viveu no s\u00e9culo VI no reinado de Teodorico, ainda no imp\u00e9rio romano, influenciou o pensamento musical da idade m\u00e9dia. Ele descreve os efeitos da m\u00fasica no homem e define o seu dom\u00ednio; de acordo com ele, existem v\u00e1rios tipos de m\u00fasica: <em>musica<\/em> <em>mundana<\/em>, <em>m\u00fasica<\/em> <em>humana<\/em>, <em>musica<\/em> <em>constituta<\/em> <em>in<\/em> <em>instrumentus<\/em> (refere-se \u00e0s ferramentas de observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A primeira, <em>m\u00fasica<\/em> <em>mundana<\/em>, referindo-se ao movimento dos planetas, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos elementos e \u00e0 m\u00fasica das esferas. A segunda, <em>m\u00fasica<\/em> <em>humana<\/em>, que une ao corpo o esp\u00edrito eterno, incorp\u00f3reo, de modo semelhante \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das conson\u00e2ncias de sons agudos e graves, a partir de determinada ordem num\u00e9rica. A \u00faltima, <em>m\u00fasica<\/em> <em>constituta<\/em> <em>in<\/em> <em>instrumenti<\/em>, segundo ele, \u00e9 a \u00fanica forma de m\u00fasica percebida sensorialmente (Lang, 1941, p.60). Influenciado por Plat\u00e3o e Pit\u00e1goras, v\u00ea a m\u00fasica como ci\u00eancia e n\u00e3o como arte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nova Concep\u00e7\u00e3o da M\u00fasica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A vis\u00e3o te\u00f3rica da m\u00fasica sofre uma substancial transforma\u00e7\u00e3o a partir de Guido D\u2019Arezzo no s\u00e9culo XI. D\u2019Arezzo foi um monge italiano, regente da catedral de Arezzo, prov\u00edncia de seu nascimento, foi o criador da nota\u00e7\u00e3o moderna (partitura) e nomeou os nomes das notas como se conhece hoje (do, r\u00e9, mi f\u00e1 sol, l\u00e1 si), baseando-se no texto latim que homenageia&nbsp; S\u00e3o Jo\u00e3o Batista.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong><em>Ut<\/em><\/strong><em>&nbsp;queant laxis&nbsp;<\/em><\/li><li><strong><em>Re<\/em><\/strong><em>sonare fibris<\/em><\/li><li><strong><em>Mi<\/em><\/strong><em>ra gestorum<\/em><\/li><li><strong><em>Fa<\/em><\/strong><em>muli tuorum<\/em><\/li><li><strong><em>Sol<\/em><\/strong><em>ve polluti<\/em><\/li><li><strong><em>La<\/em><\/strong><em>bii reatum<\/em><\/li><li><strong><em>San<\/em><\/strong><em>cte&nbsp;<\/em><strong><em>I<\/em><\/strong><em>oannes&nbsp;<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>O <em>UT<\/em> passou a ser <em>DO<\/em>, para facilitar a entona\u00e7\u00e3o vocal, e o <em>SAN<\/em> em <em>SI<\/em> em raz\u00e3o das duas letras iniciais de S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o do texto:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cPara que teus grandes servos possam ressoar claramente a maravilha dos teus feitos, limpe nossos l\u00e1bios impuros, \u00f3 S\u00e3o Jo\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O s\u00e9culo XI de Guido D\u2019Arezzo \u00e9 marcado pelo final do per\u00edodo G\u00f3tico que se caracteriza pelo desenvolvimento da polifonia. Esta forma de composi\u00e7\u00e3o se diferencia do estilo mon\u00f3dico ou homof\u00f4nico (uma s\u00f3 melodia) do canto gregoriano, integrando vozes com diferentes melodias simultaneamente. A multiplicidade de vozes torna-se, ent\u00e3o, a marca da m\u00fasica ocidental, requerendo do ouvinte um jeito diferente de escutar, se comparado \u00e0 homofonia. Na polifonia o ouvinte tende a escolher e dar prioridade as partes que quer ouvir, pois estas acontecem ao mesmo tempo. H\u00e1 na audi\u00e7\u00e3o uma escolha, uma sele\u00e7\u00e3o de trechos ou agrupamentos mel\u00f3dicos tornando o ouvinte um coautor da obra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mudan\u00e7a Social e Art\u00edstica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este sopro de renova\u00e7\u00e3o na m\u00fasica \u00e9 sintoma do cen\u00e1rio hist\u00f3rico que se esbo\u00e7a a partir do s\u00e9culo X quando a vida medieval vai aos poucos perdendo seu aspecto im\u00f3vel e estratificado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Esta \u00e9poca coincide com o surgimento das cidades livres e na decad\u00eancia do poder feudal, conhecida como \u00e9poca escol\u00e1stica, o feudalismo apresenta sintomas de perecimento desde o s\u00e9culo XI.&nbsp; A elabora\u00e7\u00e3o da filosofia escol\u00e1stica atinge, posteriormente, seu auge, com S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o das comunas e das cidades livres, a cria\u00e7\u00e3o e o fortalecimento da burguesia, est\u00e3o intrinsicamente conectados com este fen\u00f4meno. Esta queda do feudalismo ir\u00e1, claramente influenciar o pensamento filos\u00f3fico e, por conseguinte a m\u00fasica. O aumento da popula\u00e7\u00e3o e da import\u00e2ncia das cidades acarreta o despertar das atividades humanas h\u00e1 muito adormecidas como a atividade comercial, cultural e art\u00edstica. A mudan\u00e7a filos\u00f3fica e profunda, que ocorre na igreja e que podemos dizer que ir\u00e1 influir na cria\u00e7\u00e3o musical \u00e9 a transfer\u00eancia do pensamento plat\u00f4nico ligado \u00e0 concep\u00e7\u00e3o dos universais para a inclus\u00e3o do pensamento aristot\u00e9lico. A filosofia dial\u00e9tica de Arist\u00f3teles resultou em um predom\u00ednio da raz\u00e3o e um desprezo pela observa\u00e7\u00e3o dos fatos, pela comprova\u00e7\u00e3o material e pela experimenta\u00e7\u00e3o causando entrave ao progresso cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vimos at\u00e9 aqui, dois grandes per\u00edodos hist\u00f3ricos que se entrela\u00e7am em seis atividades humana: Pol\u00edticas, filos\u00f3ficas, art\u00edsticas, religiosas, mitol\u00f3gicas e cient\u00edficas e como a m\u00fasica dialoga com estas formas de a\u00e7\u00e3o humana. Acompanhamos como a m\u00fasica foi utilizada na express\u00e3o de outras linguagens art\u00edsticas e como tamb\u00e9m foi utilizada pelo controle do poder. Poder circunscrito nos campos pol\u00edtico, social, religioso e filos\u00f3fico. A utiliza\u00e7\u00e3o da musica nesses campos ir\u00e1 tecer muitas ramica\u00e7\u00f5es como na propaga\u00e7\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica, aumento da expressividade e dos efeitos cat\u00e1rticos, e a constante evolu\u00e7\u00e3o da sensibilidade e da racionalidade. Nestas ramifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 nem a preponder\u00e2ncia da sociedade sobre a m\u00fasica, nem o seu inverso. Existem sim, sempre algumas trocas que v\u00e3o se esbo\u00e7ando na temporalidade da hist\u00f3ria. Ser\u00e3o justamente estas trocas que veremos no trajeto hist\u00f3rico dos pr\u00f3ximos textos.<\/p>\n\n\n\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n\n\n\n<p>CADERNO&nbsp; de M\u00fasica Volume I\/ Servi\u00e7o Social da Industria, S\u00e3o Paulo: SESI SP Editora, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>FONTERRADA, M, De Tramas e Fios \u2013 Um Ensaio Sobre M\u00fasica e Educa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>LANG, H. Music in Western Civilization. London: J.M. Dent, 1941.<\/p>\n\n\n\n<p>MILLA, M. Breve Storia Della Musica, Torino, Einaudi, 1963.<\/p>\n\n\n\n<p>MONTEIRO, D. O Livro de Todos os Tempos \u2013 Hist\u00f3ria da Civiliza\u00e7\u00e3o, Rio de janeiro, Editora Lidador, 1964.<br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:22% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"164\" height=\"164\" src=\"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Design-sem-nome.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-222 size-full\" srcset=\"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Design-sem-nome.png 164w, https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Design-sem-nome-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 164px) 100vw, 164px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Pedro Guimar\u00e3es<\/strong>  &#8211; Mestre em m\u00fasica na \u00e1rea de Etnomusicologia pela UNESP. Professor de M\u00fasica e Arte Educador nas seguintes Institui\u00e7\u00f5es: Servi\u00e7o Social da Ind\u00fastria (SESI); Centro de Educa\u00e7\u00e3o Unificada da prefeitura (CEU); Faculdade Anhembi Morumbi; e Instituto Paulo Vanzolini (Forma\u00e7\u00e3o de Professores). M\u00fasico multi-instrumentista e compositor de trilha sonora.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo Este artigo \u00e9 o primeiro artigo de uma s\u00e9rie de tr\u00eas, que discorreram sobre a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica e evolu\u00e7\u00e3o de m\u00fasica ocidental.&nbsp; Come\u00e7aremos com a an\u00e1lise da m\u00fasica grega e medieval e como ela&hellip;<\/p>\n<p><a class=\"readmore\" href=\"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/historia-panoramica-da-musica-ocidental\/\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-251","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao-basica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251"}],"collection":[{"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=251"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":252,"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/251\/revisions\/252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/uniplenaeducacional.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}