Professores e criatividade na Escola

Para  falar de criatividade na escola e como os professores podem desenvolvê-la na sala de aula, primeiramente temos que nos ater no conceito de criatividade.

O significado de criatividade está diretamente relacionado com o ato de realizar algo novo e portanto recai primeiramente sobre o produto de uma ação. Ou seja, é criativo aquele que realiza um produto criativo.

No entanto, o professor criativo realiza um produto criativo por meio da estimulação à criatividade dos alunos, neste sentido o processo de uma ação criativa é de extrema relevância.

O termo criar está ligado ao ato de realizar tanto na acepção grega – Krainen – quanto na acepção latina – creare.

No ambiente escolar a criatividade vai estar inicialmente centrada no professor/a secundariamente no ambiente escolar. Porém, o professor/a não é o único que professa esta criatividade, ele precisa estimular e provocar esta criatividade nos alunos.

Neste sentido, ele precisa ser o mediador de um processo criativo por meio de pesquisas empíricas, análise e soluções de problemas, pedagogia de projetos, debates e outros meios abertos à criatividade dos alunos. 

Neste texto vamos entender os seguintes temas relacionados com a criatividade:

  • Como pode se dar a criatividade em sala de aula 
  • Quais são seus fatores positivos e negativos, 
  • Quais suas vantagens para o aprendizado. 
  • A ligação da criatividade com as linguagens artísticas
  • Como se desenvolveu a pesquisa em criatividade escolar.

Criatividade pessoal e em sala de aula

Já vimos que em uma sala de aula os professores são centrais no estímulo da criatividade dos alunos. No entanto, a criatividade é um fenômeno multidimensional e sofre influência de diversos aspectos como:

  • Cognitivos
  • Afetivos
  • Ambientais
  • Sociais

Contudo, é preciso saber que esses quatro aspectos se imbricam principalmente no que tange aos aspectos sociais e ambientais dos indivíduos. Relacionado a este último aspecto existem diferenças sociais que influenciam os indivíduos por meio de recursos que estão disponíveis na sociedade.

Recursos econômicos e sócio/ambientais de algumas famílias promovem a acessibilidades a bens culturais que outras não possuem.

Portanto, a melhor acessibilidade cultural vai promover maior compreensão sobre os processos afetivos e consequentemente aumentará a receptividade cognitiva de cada indivíduo. Podemos concluir com essa premissa que os diferentes extratos sociais podem influenciar na predisposição criativa do indivíduo.

Por estes motivos a escola deve possibilitar um ambiente que desenvolva a criatividade para grupos heterogêneos sem excluir ninguém desse processo. 

Atualmente há um consenso geral entre os pesquisadores em pedagogia e psicologia que a criatividade deveria ser estimulada e desenvolvida no processo educacional.

Porém, um dos maiores problemas do sistema de ensino atual é a falta de estímulo à criatividade e também a falta de valorização à essa qualidade humana. Ou seja, a estrutura escolar atual no seu processo de avaliação de habilidades, não valoriza a formação de pessoas criativas.

Muitas escolas e salas de aulas ainda promovem um ensino tradicional baseado no papel passivo do estudante, este modelo impede o desenvolvimento da criatividade dos alunos.

Para mudar esse quadro ainda presente em muitas escolas os professores precisam se familiarizar com as características do pensamento criativo no sentido de saber como as capacidades criativas se desenvolvem.

Assim, eles podem identificar os comportamentos e estimular os alunos para atingir as suas possibilidades máximas.

No entanto, o desenvolvimento da criatividade em âmbito escolar vai além dos professores e abarca também o ambiente de uma escola. neste sentido o ambiente influi no processo criativo de maneira positiva ou negativa, sendo:

  • Estimulador
  • Recompensador
  • Repressor
  • Punidor

Segundo Arthur Cropley, professor de psicologia da educação da universidade de Hamburgo, ambientes cheios de normas e pressão ao conformismo atuam na contra-mão da criatividade. Ou seja, são inibitórios, pois estimulam certos comportamentos e bloqueiam outros.

Este autor aponta que um indivíduo criativo não se desenvolveu sozinho, ele teve apoio e contato com pessoas mais experientes enquanto criança. Esta relação serviu para esse indivíduo como um fator de eliminação dos bloqueios de criatividade e  um desenvolvimento mais flexível.

Fatores da criatividade em sala de aula

Em relação a criatividade em sala de aula existem fatores negativos e positivos. Os fatores negativos são aqueles que inibem todo o processo criativo por não valorizarem a criatividade no processo de ensino e os fatores positivos são os que estão relacionados com uma escola diferenciada do modelo tradicional.

Fatores negativos

Infelizmente o modelo tradicional de ensino ainda impera em várias escolas com ênfase à memorização, conformismo e passividade.

As características mais marcantes desse velho modelo são:

  • Desenvolvimento do pensamento lógico
  • Necessidade de estar correto todo o tempo
  • Estímulo á buscar a resposta certa sem dar a chance de outras soluções
  • Práticas centralizadas no professor 
  • O professor como o único a estipular objetivos e avaliar

Fatores positivos

A escola e os professores precisam trabalhar em conjunto para estimular a criatividade nos alunos. A escola precisa criar um ambiente adequado e voltado para o pensamento inovador e os professores terão que ter consciência de sua importância no processo criativo de maneira que possam oferecer condições para o desenvolvimento da criatividade.

Neste conjunto positivo de estímulo à criatividade os alunos poderão:

  • Explorar
  • Elaborar e testar hipóteses
  • Utilizar seu pensamento criativo

Os fatores positivos da criatividade estão relacionados com um clima permanente de liberdade mental onde se valoriza o pensamento autônomo e divergente.

Neste sentido, a escola que trabalha no desenvolvimento da criatividade utiliza o caminho inverso da uniformização, ou seja ela estimula a discrepância, a oposição lógica e a crítica fundada.

vantagens de uma escola criativa

Os professores que oferecem um ensino/aprendizagem de forma criativa podem ter um retorno cada vez maior do aproveitamento de seus alunos. O aprendizado criativo vai possibilitar ao aluno mais autonomia na solução de problemas de várias disciplinas e vai trazer para sala de aula um trabalho inclusivo que respeita todas as diferenças existentes no processo cognitivo.

A criatividade aplicada em sala de aula oferece a formação do senso crítico e é uma ação libertadora na visão do professor e doutor em ciência da educação Max  Haetinger.

Ainda na visão desse pesquisador, criatividade é capaz de transformar a relação do sujeito com o conhecimento. Para Haetinger as ações criativas são meios para a compreensão e alteração da realidade.

Portanto, quando o aluno age de maneira criativa ele expressa a sua percepção que ele tem de uma situação, de uma ideia e do mundo.

Linguagens artísticas e criatividade

As linguagens artísticas como um todo contribuem para o desenvolvimento criativo em outras disciplinas, pois os alunos terão mais habilidades para desenvolver suas hipóteses.

A arte facilita o processo criativo em muitas dimensões despertando o desenvolvimento da imaginação e curiosidade.

As linguagens artísticas em sua diferentes formas como música, teatro, artes plásticas, audiovisual e literatura irão desenvolver a percepção de fenômenos que cercam o indivíduo em todo seu desenvolvimento vital.

Quando os professores oferecem um ensino que se relaciona com as linguagens artísticas possibilitam aos alunos a apurar suas percepções quanto aos seguintes estímulos:

  • Textura
  • Sonoridades
  • Gestos
  • Movimentos

Em torno das linguagens artísticas os professores podem elaborar projetos pedagógicos em que os alunos trabalhem em grupo e compartilhem suas experiências.

Os estímulos nascente de um projeto artístico são essenciais para o desenvolvimento dos alunos desde pequenos.

Segundo Haetinger as competências consolidadas durante este processo vão acompanhar toda vida do indivíduo.

Como se desenvolveu a pesquisa em criatividade escolar

No âmbito internacional as pesquisas na área da criatividade sofreram uma mudança significativa, fato que contribuiu para as concepções atuais sobre criatividade aplicada às escolas.

A partir da década de 70, o foco do desenvolvimento da criatividade foi posto no contexto sociocultural, ou seja, o foco passou das habilidades cognitivas e traços de personalidade para os fatores sociais culturais e históricos.

Neste sentido passou-se a investigar a relação desses fatores com o desenvolvimento da criatividade. No entanto, esta ótica só foi desenvolvida no Brasil na década de 90.

Esta mudança de paradigma atribuiu os problemas de criatividade ao ambiente que antes eram individuais. 

Portanto, o melhor espaço social para o desenvolvimento criativo do indivíduo passou a ser a escola, pois neste meio o aluno poderá explorar, elaborar e testar hipóteses fazendo uso de seu pensamento criativo.

Dentro das pesquisas sobre criatividades alguns autores salientam a importância de fatores individuais e coletivos no desenvolvimento criativo.

Para valorizar as aptidões individuais em um processo coletivo os professores precisam oferecer um ambiente em que os alunos tenham liberdade de se expressarem.

Segundo Mitjáns Martínez a escola como um ambiente facilitador da criatividade precisa estabelecer um vínculo positivo entre professores, alunos e direção.

Portanto, nesse espaço integrado o professor precisa considerar os seguintes aspectos:

  • Processo de ensino centrado no aluno: O professor como mediador e facilitador do ensino-aprendizagem estimulando o pensamento crítico, interesses e potencialidades
  • Respeito a individualidades: Observação das potencialidades individuais
  • Liberdade e disciplina: Observação das responsabilidades, segurança psicológica e tolerância
  • Valorização do progresso de cada aluno: Não enfatizar o aspecto avaliativo somente por notas

Conclusão

Vimos neste texto que a mudança paradigmática sobre o desenvolvimento da criatividade recaiu sobre os ambientes coletivos e portanto, a importância da escola se tornou decisiva para o desenvolvimento criativo do indivíduo.

No entanto, não podemos esquecer que o ensino baseado no modelo tradicional que centraliza o conhecimento nos professores, não contribui para uma sala de aula realmente criativa.

Portanto, o processo criativo irá se desenvolver com mais eficácia em um ensino que o papel dos professores deverá ser o de facilitador e mediador do conhecimento.

Pedro Guimarães – Mestre em música na área de Etnomusicologia pela UNESP. Professor de Música e Arte Educador nas seguintes Instituições: Serviço Social da Indústria (SESI); Centro de Educação Unificada da prefeitura (CEU); Faculdade Anhembi Morumbi; e Instituto Paulo Vanzolini (Formação de Professores). Músico multi-instrumentista e compositor de trilha sonora.

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