Papel da Música na Sociedade

Resumo

Este artigo discute o papel da música em um sentido amplo não somente como função social. A música pode se definir e ser representada não necessariamente como tendo uma função na sociedade e sim como uma particularidade dentro de outras instâncias. A música percebida é parte de um todo sensorial ou espectro sensório, a música na sociedade pode ser parte de um espectro mais amplo da expressividade. No sentido que para os povos originários não existe uma separação forte e demarcada entre música, festa, dança e até jogo. Veremos neste artigo como as definições dos lugares da música contribuíram para uma visão estreita sobre ela e como as regras tácitas e instituídas que recaem sobre as manifestações culturais dos povos, podem se tornar nocivas para a sua própria inventividade.

Introdução

 A palavra definir está entre dois imperativos: Indicar o verdadeiro sentido e estabelecer limites, duas ações que podem ser bastante antagônicas. Em se tratando de música a ação de definir seria indicar o verdadeiro sentido da música e ao mesmo tempo estabelecer seus limites. Na raiz da linguagem, no que diz respeito à música, já existe muitos condicionantes na indicação de um único sentido, no estabelecimento de limites e na própria palavra música. A origem etimológica da palavra música vem de musas, um mito da cosmogonia grega, e que mesmo culturas e etnias que não fazem parte e nem vivenciam esta mitologia, são enquadradas nesta raiz descritiva. 

A música faz parte da ação humana em culturas milenares em toda parte do mundo. Este artigo discutirá o quanto a música, uma atividade milenar, está sequestrada por definições que empobrecem sua amplitude e estreita seus lugares instituídos. Neste sentido, investigaremos o quanto as definições de música na nossa sociedade começam por definir lugares, supremacias, etnocentrismo, estratos sociais e expressivos.  

Definições e Divisões da Expressividade

O conhecimento estabelecido sobre a música e sua história sempre se construiu e se constrói sobre duas forças. Uma força conservadora exclusivista que elitiza este conhecimento artístico e musical, colocando-o sobre uma base científica no intuito de legitimá-lo. Ação esta de duplo engano, pelo fato de tentar legitimar um ideal estético com uma explicação que não cabe para tal alegação, e por crer e fazer crer que a ciência é incontestável, ou seja, é uma instância do conhecimento humano que possui um carimbo legitimador. 

Não se quer dizer com esta constatação, que a atribuição de legitimidade a ciência não seja lícito, ou que a ciência não explica os fenômenos, não investiga com incessantes estudos. O que se aponta e se sublinha, é o efeito nocivo do conhecimento fechado e instituído, que está inserido na práxis musical, resultando no fomento de supostas superioridades culturais.  

A outra força esta plasmada e circunscrita, em escritos e ações que discute o que está instituído, de maneira problematizada, aberta a toda complexidade. Esta força possui o germe de uma constante renovação e vê o mundo como não dado, não estabelecido e aberto. Como diz Paulo Freire em seu livro “Educação e Mudança”, é preciso uma reflexão sobre o seu estar no mundo associada á sua ação sobre o mundo, se não resulta na não transposição dos limites que lhe são impostos pelo próprio mundo (Freire, p.16).

Revendo e avaliando estas duas forças ou concepções, começaremos por olhar para o que está estabelecido no que concerne primeiro aos lugares de percepção e expressão musical. Veremos então, alguns pontos conflitantes que se sucederam na evolução da linguagem musical.

A percepção sonora ou escuta, faz parte de um espectro sensorial geral, quando percebemos um fenômeno. Este espectro é dividido em sons, imagens, cheiros, gostos e texturas táteis. O desenvolvimento das técnicas e teorias artísticas separou relativamente este espectro, sugerindo por meio da própria linguagem artística que em uma percepção ou fruição visual exista somente o apelo visível ou em uma audição de um concerto musical instrumental, exista só o aspecto sonoro a ser analisado. Esquecemos muitas vezes dos gestos dos musicistas, que são táteis em sua função, ou texturas táteis em uma obra visual e sonora que são intensões do artista contidas em sua arte.

 Esta rigidez que foi colocada no desenvolvimento das linguagens artísticas e na separação entre elas, se converteu em um conhecimento cada vez mais especializado. Este saber muito marcado por uma linearidade técnica contribui para o surgimento de lugares também especializados. Esta separação entre as artes levou a algumas rupturas artísticas, tanto na música como nas artes visuais. No sentido que alguns artistas visuais foram levados a contestar os museus, tanto em sua representatividade social como no limite de suas instalações. 

O museu necessitava de uma reinvenção institucional de um processo discursivo reiterando normas e convenções. Neste sentido, ele se tornou um espaço fechado e imóvel para o fluxo do discurso artístico.

  Neste mesmo viés, o compositor de música contemporânea irá discutir a formação das orquestras e o formato das salas de concerto, bem como o próprio concerto, como no caso de John Cage na composição “4.33”. Compositor que apresentou uma composição em que o interprete não tocava durante quatro minutos e trinta e três segundos. Este silêncio musical nos remete a uma ênfase no espaço consagrado a música, pois o único som que se ouve nesta música é som da sala de concerto representado por barulhos de cadeiras, tosses e outros sons resultantes de uma plateia ansiosa e provocada. 

Concluindo este tópico, a discussão e o olhar para as formas de percepções, provocaram muitas mudanças nas linguagens artísticas e na sua difusão. Fez com que o artista repensasse a arte em termos de manipulações do seu material, seja ele, sonoro, tátil ou visual.

Os Espaços da Música 

A continuação em vislumbrar o papel da música na sociedade vem seguindo o eixo ainda da percepção da música. O caminho em que a música se desenvolveu objetivando a sua difusão e o seu melhor entendimento resultou nas construções de espaços destinados para a apreciação musical. Falaremos agora desses espaços nas acepções materiais e simbólicas. Desde a criação dos teatros gregos já havia uma preocupação com o estudo da acústica, no intuito de melhorar a propagação dos sons, principalmente o sons vocais, posteriormente vieram os romanos que desenvolveram um sistema mais complexo do estudo da acústica, nos teatros ao ar livre.

Os teatros fechados presentes nas culturas gregas e romanas tinham o nome de odea. Passou-se na idade média, a apreciação musical para as igrejas, musica que fazia parte do culto. As catedrais davam ótimos efeitos de reverberação, principalmente para as músicas polifônicas. Com a evolução técnica da música surgiu a primeira casa de ópera em Veneza, em 1637. Posteriormente no século XVIII, surgiram as salas de concerto. Foi a partir desta época que surgiram salas específicas para música e ao mesmo tempo os compositores começaram a escrever músicas específicas para estes lugares (Long, 2006). A partir no século XIX seguindo a revolução industrial, a salas de concerto aumentam de tamanho e devido à altura do teto, ocasiona grandes reverberações sonoras, influenciando as composições do estilo clássico. O efeito reverberado do som proporciona um efeito grandioso e celestial à música, fato que lembra a idade média, onde o mesmo efeito era proporcionado na música polifônicas do período gótico. 

A esfera grandiosa em que é colocada a música nesta trajetória trafega ao lado do campo mitológico e religioso, ou seja, o cosmogônico e o teológico. Podemos ver que tanto os espaços das igrejas como os espaços destinados a música carregam este campo imaterial cosmogônico e teológico. Podemos concluir com isso que os espaços culturais e religiosos trazem consigo a áurea simbólica. A arquitetura religiosa guarda uma relação simbólica com uma concepção cosmogônica e esta relação, garante o poder significante dos templos. Para o religioso o espaço não é contínuo ou homogêneo, há rupturas e há espaços mais significativos do que outro (Oliveira, 2010). Há um espaço sagrado, e por consequência, forte e significativo, e há outros espaços não-sagrados e por consequência, sem estrutura e sem consistência, em suma, amorfos (Eliade, 1970 p.35)

Importância Cultural da Música

Para situar a música dentro da cultura, seguiremos este intuito de esboçar o papel da música em uma visão ampla saindo agora da esfera sacralizada de uma cultura etnocêntrica. Vimos até aqui como este universo de consagrações definiu o lugar de música em uma evolução linear e ocidentalizada. Mas é de suma importância, lembrar que cultura e a música não pertencem somente a esta única sacralização. Cultura e música são particularidades que pertencem a instâncias humanas e também sagradas, só que em um universo bem mais amplo. Universo que abrange as formas culturais e musicais africanas, orientais, de culturas originárias e outras. Não podemos definir cultura e nem música a partir de uma história evolutiva e linear que tem sempre como principal referência a cultura europeia.  

Nos termos antropológicos de Clifford Geertz, a cultura é uma teia de significados tecida pelo homem. Portanto, cultura, não é algo dado e indiscutível. Nos dizeres de Paulo Freire, “a cultura consiste em recriar e não em repetir” (Freire, p.51). O estudo da música, enquanto teoria esteve a cargo da musicologia que sempre pesquisou a música tradicional europeia. A música oriental, ameríndia, africana e popular pertence ao campo de etnomusicologia, considerada como estudos culturais por alguns estudiosos.

  Existe uma clara divisão de espaços e lugares nestas terminologias, a musicologia que estuda o sistema musical teórico e histórico consubstanciado na música europeia e, portanto com mais legitimidade nos assuntos teóricos e epistêmicos musicais. E a etnomusicologia, que pesquisa a música nas demais culturas não europeias com uma instrumentalidade europeia. 

O termo ethno musicology, foi dado por Jaap kunst em 1950, mas ainda está sendo muito discutido pelos limites de seus objetos de estudo.  O que levanta a seguinte questão:

A musicologia deve estudar somente os termos teóricos e a evolução histórica da música ocidental?

 Esta questão nos deixa entrever que o prefixo etno tem a função de legitimar lugares, em tornar clara a descontinuidade da música no sentido que existem músicas mais válidas que outras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. Lisboa: Livros do Brasil. 1970.

FREIRE, P. Educação e Mudança. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1979

LONG, Marshal. Architectural Acoustics California: Elsevier. Academic Press 2006.

OLIVEIRA, Daniela. A Produção de Espaço Sagrado na Arquitetura Contemporânea – A Interpretação da Fé Católica a Partir do sec. XX 2010 2v,:il.

TAKAHASCHI, Vanessa. Influência das Características Arquitetônicas na Qualidade Acústica de Salas de Concerto. Campinas, SP [s. n.] 2010.

Pedro Guimarães – Mestre em música na área de Etnomusicologia pela UNESP. Professor de Música e Arte Educador nas seguintes Instituições: Serviço Social da Indústria (SESI); Centro de Educação Unificada da prefeitura (CEU); Faculdade Anhembi Morumbi; e Instituto Paulo Vanzolini (Formação de Professores). Músico multi-instrumentista e compositor de trilha sonora.

Deixe um comentário