Formação de professores para atuar no EJA

A formação de professores para a atuar na Educação de Jovens e Adultos precisa objetivar a consciência de fatores sociais que provocam a exclusão e a evasão escolar. A partir dessa consciência o profissional precisa trabalhar com recursos e ferramentas que incentive os alunos a permanecerem na continuidade de suas formações.

Portanto, os professores que atuarão no EJA precisam formar uma consciência histórica sobre os fatores sociais que causam a evasão escolar e trabalhar em uma ótica de formação intelectual dos indivíduos.

O EJA foi consolidado a partir de estudos de Paulo Freire e com o movimento de educação popular que tinha como eixo principal a utilização do saber comunitário, ou seja, aprender a partir dos conhecimentos prévios dos sujeitos de uma comunidade.

Neste sentido, os principais fundamentos do EJA foram criados a partir das formulações de Paulo Freire e da Educação Popular.

Breve história da educação para Jovens e Adultos

O ensino para a alfabetização no Brasil teve presença histórica em vários cenários e atendendo a diversos propósitos. Portanto as primeiras incursões alfabetizadoras foram feitas pelos jesuítas a fim de catequizar os povos originários, em pleno Brasil Colonial.

Portanto, o primeiro propósito dessa ação de alfabetização era religioso e colonialista. Posteriormente o Brasil caiu em um vazio de ensino institucional até o século XIX, quando na chegada da família Real ao Brasil em 1808 o ensino passa a ser pautado novamente.

Contudo, nessa época o ensino servia a industrialização e urbanização, portanto o viés era mais de treinamento e adaptação à futura ordem do capitalismo industrial. 

Posteriormente, na metade para o final do século XIX a aprendizagem para adultos tomou novo fôlego com a fundação de várias escolas noturnas.

Ainda com intenções tecnicistas de ensino, no século XX, o ensino obrigatório e gratuito para crianças e adultos foi instituído na constituição em 1934.

A partir dessa oficialização do ensino, a década de 40 foi muito profícua com a criação de várias iniciativas políticas e pedagógicas como:

  • FNEP: Fundo nacional de Ensino primário
  • INEP: Instituto Nacional de Ensino primário
  • CEAA: Campanha de Educação de Adolescente e Adultos

No entanto, a década de 60 foi o auge das preocupações educacionais para adultos em uma ótica separada do tecnicismo capitalista,com o II congresso nacional de Adultos, que contou com a participação de Paulo Freire.

Nesta época, Paulo Freire propôs uma educação de adultos com a possibilidade de interação com o meio social e político.

Porém, essas ideias foram engavetadas por causa do Golpe Militar e o exílio de Paulo Freire, e o Brasil caiu em outro vazio institucional do ensino para jovens e adultos.

No entanto, em 1988 com a nova constituição, a educação de jovens e adultos passou a ser um direito público garantido em forma de supletivo.

A década de 90 foi palco para várias discussões em torno da educação para jovens e adultos, algumas temáticas mais abordadas foram:

  • Educação da população como ferramenta de desenvolvimento
  • Alfabetização como garantia do direito à liberdade de expressão
  • Comunicação social de forma igualitária
  • Interação dos indivíduos com o meio social

Vale lembrar que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) 9394 de 1996 consolidou o atual nome “Educação de Jovens e Adultos” (EJA). 

Até 1996 essa modalidade educativa era chamada de educação de adultos. Porém, com a quantidade de jovens que se encontravam excluídos do direito à educação, esses passaram a ser objetivos deste programa.

Qual o papel do Professor do EJA?

Diante desse cenário panorâmico e histórico que vimos até aqui, podemos constatar que a intenção básica do ensino para jovens e adultos é a formação do indivíduo respeitando e levando em conta a sua subjetividade e seus conhecimentos prévios.

Esta intenção objetiva a formação completa do indivíduo e é contrária ao treinamento oferecido para adequar este indivíduo a um ordem externa, seja religiosa ou econômica, como vimos na educação colonial e do século XIX.

Portanto, o EJA segue o ideário proposto por Paulo Freire circunscrito na ação-reflexão, conceito básico de sua obra.

A ação-reflexão vai possibilitar a constituição de uma sociedade de sujeitos críticos que atuem em favor da transformação social engajados em sua cultura.

Neste novo cenário proposto inicialmente por Paulo Freire e posteriormente discutido nas décadas de 80 e 90, cabe ao professor estimular os alunos a reconhecerem na educação uma ferramenta para a liberdade.

Além disso, os professores do EJA precisam possibilitar a consciência da educação como ferramenta do desenvolvimento intelectual e aquisição de mecanismos de interpretação e representação da realidade e historicidade de cada um.

Formação dos educadores do EJA

A formação dos educadores do EJA é um assunto que se mantém ainda em meio a muitos debates e discussões. No entanto, podemos vislumbrar alguns eixos de concordância em meio de um terreno ainda um pouco instável.

 1-EJA e a educação infantil

A primeira ideia que é convergente sobre a formação de professores é o rompimento com a aplicação de concepções da educação infantil no EJA.

Portanto, já no I congresso nacional de Educação de Adultos, realizado em 1947 já se recomendava uma preparação mais apropriada para o trabalho com adultos.

Posteriormente, em 1958 no II Congresso às críticas a ausência de uma formação específica para essa atuação e a falta de métodos se tornaram mais agudas.

Estas críticas recaiam principalmente sobre o fato que o sistema educativo organizado para adulto reproduzia as mesmas características da educação infantil. 

O conteúdo direcionado a esse público era um conteúdo formal das escolas primárias, tomava o adulto como um ignorante, sem levar em conta a sua vivência cultural e profissional,  Estes princípios alimentavam o preconceito com o analfabeto.

2- EJA e o conhecimento prévio dos alunos

Tomando as concepções de Paulo Freire onde esse autor critica a “Educação Bancária” – formato educativo que vê o aluno sem nenhum conhecimento válido – a segunda ideia formadora da essência do EJA são os conhecimentos e experiências do aluno.

Esta concepção está também na Declaração de Hamburgo sobre educação de adultos da UNESCO em 2004. Este documento aponta que a educação específica para adultos precisa englobar e incluir a educação formal, informal e não formal.

Neste sentido, essa educação precisa levar em conta as habilidades que os indivíduos desenvolveram e que em um contexto informal adquiriram qualificações técnicas e profissionais. Assim, os estudos práticos e teóricos praticados incidentalmente em uma sociedade multicultural devem ser reconhecidos.

A partir dessa concepção nasce a necessidade de uma formação específica para os professores do EJA. Esta formação é salientada pelo Parecer CEB/CNE em 2.000 e aponta que essa educação precisa privilegiar uma relação pedagógica em que as experiências vitais dos sujeitos não podem ser ignoradas.

Ou seja, os professores do EJA precisam ter o conhecimento pedagógico, filosófico e sociológico somados às experiências e conhecimentos prévios dos educandos.

Fundamentações teóricas para os professores do EJA

Vimos até aqui que o EJA é um campo muito discutido e possuiu e ainda possui muitas dificuldades em se firmar como uma área específica na educação. Ou seja, as propostas do EJA precisam ter uma identidade própria se diferenciando das propostas da educação básica e regular voltada para crianças e adolescentes.

Neste sentido, na formação dos professores do EJA está um vasto leque de contribuições teóricas que perpassam várias áreas do conhecimento como sociologia, antropologia, história, filosofia, política, sociologia, linguagem e pedagogia.

No entanto, para termos uma ideia mais focada no âmbito desse artigo é necessário apontar para a filosofia da educação e inicialmente o autor que se destaca nessa área é Paulo Freire.

Neste sentido, na base da formação do educador que irá atuar no EJA deve estar a visão crítica em relação a educação tecnicista. Assim, esse educador precisa evitar o ato de educar de forma antidialógica e vertical vendo o aluno como um ente passivo sem nada para oferecer enquanto indivíduo histórico e cultural.

Além disso, precisa plantar a criticidade e a autonomia dos alunos fazendo com que eles 

percebam como estão inseridos no mundo de maneira crítica e histórica.

No campo da psicologia da educação os nomes mais importantes são Emília Ferreiro e Vygotsky, principalmente no trabalho sobre subjetividades e intersubjetividades.

No entanto, existem muitas linhas teóricas que vão de encontro com a principal ideia de valorizar o conhecimento, a subjetividade, a identidade e a cultura dos alunos do EJA, fazendo com que esse ensino seja uma construção que correlaciona professores e alunos na busca do conhecimento.

Pedro Guimarães – Mestre em música na área de Etnomusicologia pela UNESP. Professor de Música e Arte Educador nas seguintes Instituições: Serviço Social da Indústria (SESI); Centro de Educação Unificada da prefeitura (CEU); Faculdade Anhembi Morumbi; e Instituto Paulo Vanzolini (Formação de Professores). Músico multi-instrumentista e compositor de trilha sonora.

1 Comment

  1. SIM REALMENTE TUDO QUANDO SE EXPLICA DE FORMA FISICA E SOLIDA FICA MAIS FACIL A SUA COMPREEÇÃO. EX FALAR EM GEOMETRIA PARA UM PEDREIRO, FALAR EM MEDIDAS PARA UMA COSTUREIRA FALAR EM DIVISÃO COM UMA COZINHEIRA ETC…

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