Capacitação contínua de professores e sua importância
A capacitação contínua de professores é uma modalidade de ensino/aprendizagem cada vez mais necessária nos dias atuais. Muitos fatores cobram dos professores a constante busca por aperfeiçoamento.
Primeiramente, antes de aprofundarmos no mérito do aperfeiçoamento contínuo dos professores, vamos procurar dar ênfase ao conceito de capacitação e sua diferença com relação ao conceito de formação.
Podemos dizer que a capacitação está mais relacionada com a prática pedagógica de aplicação de certos métodos educacionais e hoje aos meios digitais que ampliam os recursos pedagógicos desses métodos.
Por outro lado, a formação está mais atrelada a compreensão teórica dos diversos conhecimentos e sua inter relações. Ou seja, os professores precisam compreender as relações entre filosofia, políticas, sociais e epistemológicas que fazem parte do ensino de conhecimentos específicos.
Para dar um exemplo simples sem entrar no aprofundamento de uma disciplina, um professor de matemática não pode se ater somente no âmbito das quantificações e relações numéricas. Para melhorar seu ensino ele precisa saber das condições psicológicas e cognitivas dos discentes.
Além disso, ele precisa acrescentar a sua prática pedagógica as experiências cotidianas dos alunos em relação com medidas e quantidades, ou seja, seus conhecimentos prévios. Portanto, os professores precisam articular os seus conhecimentos filosóficos, sociais, políticos e epistemológicos para conhecer melhor seus alunos e escolher o melhor método de ensino.
No entanto, além da formação, os dias atuais cobram uma capacitação frente a provisoriedade do conhecimento. Atualmente, o mundo passa por constantes mudanças que vem de conquistas tecnológicas e científicas.
Porém, com todas as vantagens que essas conquistas trazem, elas também trazem o efeito da obsolescência, principalmente na área da tecnologia. Ou seja, um conhecimento se torna obsoleto e é logo substituído por outro. Este cenário pode trazer uma aparente ameaça a todo conhecimento conquistado, mas antes de tudo ele traz uma constante busca por renovação.
Por esse fator que o processo de capacitação do professor precisa ser contínuo frente a um mundo que cobra a constante revisão e reformulação de saberes.
Neste texto veremos a importância da capacitação e formação contínua dos professores frente a uma escola ressignificada que torna o ato de ensinar cada vez mais complexo.
Importância da capacitação do professor
Na introdução desse texto vimos uma tênue diferença entre capacitação e formação, pois tanto no processo de capacitação quanto no de formação os professores precisam passar por constantes aperfeiçoamentos.
Portanto, podemos concluir a princípio que no mundo atual os processos de formação e capacitação se aproximam em seu significado conceitual. No centro do significado de capacitação está a ação de tornar-se apto ou habilitar-se.
Por outro lado, o conceito de formação continuada dos professores, está relacionado com o ato de formar e criar, ou seja, formação pessoal incorre na formação de caráter crítico e responsável diante do ensino.
Podemos ver até aqui que tanto capacitação e formação estão conectados com o indivíduo, no entanto quando colocamos capacitação e formação na profissão docente, vimos que tanto as ações de capacitação como as ações de formação estão colocadas no trabalho para o outro.
Neste sentido, o professor precisa passar por esses aperfeiçoamentos para desenvolver habilidades e aptidões sempre renovadas diante das transformações tecnológicas e também desenvolver o espírito crítico diante dos problemas históricos e sociais.
Como funciona a capacitação e formação contínua
A formação e capacitação continuada de professores pode se dar em cursos, simpósios, reuniões que tem como objetivo a autoformação e formação colaborativa entre professores. No entanto, somente estas ações não resolvem a superação tecnicista da formação docente.
Ou seja, uma formação voltada somente para a racionalidade técnica transforma os professores em aplicadores de receitas prontas. Portanto, para superar este ideário ligado a aplicações práticas, é preciso que a formação seja um processo contínuo atrelado aos seguintes fatores:
- Parcerias colaborativas: Interação entre os professores a fim de refletir sobre a intervenção pedagógica com crítica histórica e social
- Reflexões críticas sobre a própria prática pedagógica: As reflexões trazem a diminuição da distância entre os conceitos teóricos educacionais e a realidade de cada sala de aula.
- O advento do professor pesquisador: A formação continuada precisa objetivar a construção do professor-pesquisador de sua própria prática, isto supera a ideia que para ensinar basta conhecer o conteúdo e utilizar algumas técnicas pedagógicas.
Breve história da formação docente no Brasil
A formação docente no Brasil começou ainda incipiente no século XIX, em 1820 a preocupação com a formação dos professores girava em torno do domínio metodológico e da alfabetização.
Porém era uma formação direcionada somente ao ensino primário. Posteriormente em 1930 a educação começou a ser tratada como uma questão nacional objetivando o ensino secundário e o superior.
Segundo Libâneo, em 1960 são feitos alguns treinamentos para o desenvolvimento da consciência do eu e dos outros por meio de técnicas e métodos.
Nesta época foram utilizados alguns instrumentos como: Dinâmicas de grupos, desenvolvimento de habilidades de relacionamento interpessoal, técnica de sensibilização para os aspectos afetivos da relação pedagógica.
No entanto, na década de 70 o foco foi a elaboração de planos de ensino, instrução programada, recursos audiovisuais e técnicas de avaliação.
A partir da década de 80 com o fim da ditadura militar, muitas reformas educacionais se sucederam influenciadas por eventos nacionais e internacionais.
No Brasil a promulgação da constituição de 1988 foi um passo decisivo para educação e também para os processos de formação docente.
Um evento internacional que também contribuiu muito para os programas de formação de professores foi a conferência internacional de educação para todos que ocorreu na Tailândia em 1990.
A partir desta época surgem a LDB ( lei de diretrizes e bases) de 1996 e PNE ( plano nacional de ensino) previsto pela LDB.
Tanto na lei como no plano estão implicados a formação continuada dos professores.
- LDB: Estipula o prazo de dez anos para os professores serem graduados ou formados por treinamentos em serviço
- PNE: Foca na formação continuada como forma de valorização do magistério e melhoria da qualidade da educação
Conteúdo e reflexão na formação docente
Na formação e capacitação continuada existem dois ideários que muitas vezes se colidem, mas ao mesmo tempo podem ser complementares no debate sobre formação.
Existem autores que defendem a proposta do professor reflexivo que é quando o professor tem a liberdade de criar uma reflexão teórica sobre a sua prática estabelecendo assim o rumo certo para a sua sala de aula.
Nesta perspectiva o professor é o pesquisador de seu percurso contornando a dicotomia entre teoria e prática, ou seja, ele produz teoria por meio de sua prática e da relação com o aluno.
O conhecimento de professor-reflexivo está presente na teoria de Donald Schon influenciadas por John Dewey, onde a reflexão se estabelece na ação recíproca com seu aluno. Assim o conhecimento é desenvolvido por meio da dúvida e diálogo, transformando o professor em mediador nesse processo.
.No entanto, a deficiência dessa proposta é o foco em uma epistemologia que desvaloriza o conhecimento teórico, acadêmico e científico não situando historicamente o aluno diante do conhecimento.
Libâneo oferece uma visão crítica ao ideário do professor reflexivo quando separa dois tipos de reflexão:
- Reflexão de cunho neoliberal: A reflexão objetiva uma racionalidade instrumental nesta visão existe somente uma apreensão prática do real. Ou seja, o professor relaciona prática e teoria a fim de transmitir competências técnicas.
- Reflexão crítica: na reflexão crítica os teóricos se posicionam contra a racionalidade técnica. Neste sentido existe a relação da teoria com a prática em um sentido crítico, ou seja nessa proposta o professor trabalha o conhecimento com consciência de sua realidade social e possui atitudes críticas frente ao sistema econômico, político e social.
Conclusão
Vimos nesse texto que a importância da capacitação e formação continuada dos professores reside em oferecer um ensino de qualidade.
No entanto, o conceito de qualidade é bem amplo, e se não desenvolvermos ele tende para aspectos reduzidos da prática docente.
Neste sentido a qualidade do ensino precisa recair em um ensino que favoreça o conhecimento de cada conteúdo como produção histórica da sociedade.
Esta abordagem faz com que o indivíduo perceba a realidade social de modo crítico e tanto os professores como os alunos possam se comprometer com a sua transformação.

Pedro Guimarães – Mestre em música na área de Etnomusicologia pela UNESP. Professor de Música e Arte Educador nas seguintes Instituições: Serviço Social da Indústria (SESI); Centro de Educação Unificada da prefeitura (CEU); Faculdade Anhembi Morumbi; e Instituto Paulo Vanzolini (Formação de Professores). Músico multi-instrumentista e compositor de trilha sonora.

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